Um administrador contrata aquilo a que chama um logótipo, paga, e recebe um ficheiro de imagem. Meses depois, ao montar o site, a apresentação ao investidor ou a embalagem, descobre que não tem como os manter coerentes: não há variações, não há paleta definida, não há regras de aplicação. O ficheiro estava correto. Faltava tudo o resto. A confusão entre logótipo, logomarca e identidade visual não é uma questão de vocabulário de designers. É a razão por que tantas empresas compram a camada errada, e pagam a diferença mais tarde.
As três palavras que o mercado troca
Comece-se pela confusão, porque ela é real e tem origem legítima. Abra um dicionário português e verá que logótipo e logomarca são tratados como a mesma coisa. O Priberam define logótipo como o conjunto formado por letras e ou imagens que identifica, representa ou simboliza uma entidade, uma marca, um produto ou um serviço. Para logomarca dá exatamente a mesma definição, e remete o leitor para logótipo. Na língua, os dois termos são sinónimos.
O próprio dicionário guarda ainda uma segunda aceção, mais antiga. Na tipografia de metal, logótipo era um conjunto de letras fundidas numa peça única de tipo. A etimologia confirma-o: a palavra junta logos, que é palavra, e typos, que é marca ou impressão. O sentido original era estritamente o desenho do nome. Com o tempo, alargou-se para qualquer sinal de identificação, incluindo os que não têm letra nenhuma.
Entre designers há uma convenção mais fina, e é útil, mas convém dizer o que ela é. A distinção corrente de que logótipo é só o texto e logomarca é o símbolo importou-se sobretudo do português do Brasil e não é sancionada pelo dicionário, que funde os dois. É uma etiqueta de ofício, não uma lei da língua. Quem discute qual palavra está certa está a discutir o rótulo, não o objeto que ele designa. E o objeto é o que interessa a quem assina um orçamento.
Quatro objetos, do sinal ao sistema
Deixe-se a etiqueta e olhe-se para o que existe de facto. Há quatro coisas distintas, e vale a pena separá-las porque cada uma resolve um problema diferente.
A primeira é a assinatura, aquilo a que o uso corrente chama logótipo. É o sinal visível que identifica a marca, e tem famílias reconhecidas no ofício. O wordmark é o nome desenhado numa forma própria, como a palavra Coca-Cola ou a palavra Google. O monograma, ou lettermark, faz-se das iniciais, como IBM ou HP. O símbolo é uma marca gráfica sem palavras, como a maçã ou o traço da Nike. E a combinação junta nome e símbolo, que é a forma mais comum de todas. É a este conjunto de monograma mais palavra que a própria identidade da NP chama o seu logótipo.
A segunda é a logomarca, a palavra ambígua. No mercado usa-se ora para o símbolo isolado, ora para a combinação de símbolo e nome. Como o dicionário a trata por sinónimo de logótipo, não vale a pena arbitrar: o que importa reter é que designa uma das formas da assinatura, não algo acima dela.
A terceira é a identidade visual, e é a camada que quase toda a gente subestima. Alina Wheeler, no manual de referência da disciplina, define-a com precisão:
Brand identity fuels recognition, amplifies differentiation, and makes big ideas and meaning accessible. Brand identity takes disparate elements and unifies them into whole systems. Alina Wheeler, Designing Brand Identity
A identidade visual é o logótipo mais a paleta de cores, a tipografia, as grelhas, a imagética, os ícones e, sobretudo, as regras que dizem como cada elemento se aplica. É o que transforma um desenho isolado num sistema que se repete sem se contradizer. Toma, nas palavras de Wheeler, elementos dispersos e unifica-os num todo.
A quarta é a marca, e não é imagem nenhuma. Marty Neumeier, em The Brand Gap, é direto ao ponto de ser desconfortável:
A brand is not a logo. A brand is not an identity. A brand is not a product. A brand is a person's gut feeling about a product, service, or organization. Marty Neumeier, The Brand Gap
A marca é a perceção que existe na cabeça de quem compra. O logótipo e a identidade visual são os instrumentos com que se constrói essa perceção, não são a perceção. Por isso Neumeier acrescenta, noutra frase da mesma obra, que a marca não é o que você diz que ela é, é o que os outros dizem que ela é. E o branding, define Wheeler, é o processo disciplinado com que se constrói tudo isto ao longo do tempo.
O limite: a palavra não é a coisa
Convém dizer o que esta arrumação não é. Não é a definição oficial, porque não existe uma. O dicionário funde logótipo e logomarca, muitos designers separam-nos, e o uso comum troca os três termos todos os dias. Ninguém tem autoridade para fixar a terminologia, e a NP não a reclama. O que se pode fixar, e é o que importa a quem decide um orçamento, é a função: há um sinal, há um sistema à volta dele, e há a perceção que os dois servem. Separe-se pela função, não pelo nome.
Porque cada camada resolve um problema diferente
A razão para separar isto não é pedantismo. É que quem confunde as camadas compra uma e sai convencido de que comprou as três.
O sinal resolve o reconhecimento, e resolve-o de forma mensurável, o que retira a discussão do campo do gosto. Em 1998, Pamela Henderson e Joseph Cote publicaram no Journal of Marketing uma análise de cento e noventa e cinco logótipos, calibrados em treze características de desenho. Encontraram que as características do desenho determinam três coisas de uma vez: o reconhecimento correto da marca, um falso sentido de já a conhecer, e o afeto que ela desperta, mesmo em logótipos que o observador nunca viu. Por outras palavras, o desenho do sinal tem função, não é adorno. Mas repare no que ele resolve. Resolve o reconhecimento, e só isso. Um sinal excelente aplicado sem sistema continua a ser um sinal excelente e uma marca incoerente.
O sistema resolve a coerência. Um logótipo sem identidade visual fica órfão: cada suporte novo, o site, o cartão, a fatura, a apresentação, torna-se uma decisão tomada do zero por quem estiver à frente do computador nesse dia. A marca não se acumula, porque nunca aparece igual duas vezes. A identidade visual é o que faz cada aplicação somar à anterior em vez de a contradizer, e é exatamente isto que Wheeler quer dizer com unificar elementos dispersos num sistema inteiro.
A perceção é o resultado, e essa não se compra, constrói-se. O sinal e o sistema são as únicas alavancas que a empresa controla sobre uma perceção que, no fim, pertence aos outros. Geri-las mal é abdicar da única influência que se tem sobre aquilo que o mercado vai concluir. É por isso que, na NP, cada elemento da identidade existe por função e nenhum por adorno: a cor funciona como marcador cognitivo, a tipografia como voz, o símbolo como âncora de memória. Nenhum está lá para enfeitar.
O dinheiro: o custo de comprar a camada errada
Traduza-se isto para o que aparece nas contas, porque é aí que a confusão deixa de ser semântica.
Quem compra um sinal quando precisava de um sistema recebe um ficheiro correto e um problema adiado. Sem regras de aplicação, a marca degrada-se a cada peça nova, e a degradação não se vê de uma só vez: é um desconto lento sobre cada contacto com o mercado. David Aaker, na definição mais citada da disciplina, descreveu o valor de marca como um conjunto de ativos e de passivos ligados ao nome e ao símbolo, que acrescentam ou subtraem valor. A palavra que quase toda a gente ignora é a segunda. Uma identidade incoerente não vale zero. Vale menos que zero, porque subtrai a cada aparição.
Wheeler diz o mesmo por outro lado, e a formulação é reveladora: identidade implica um ativo, ao passo que identidade corporativa soa a despesa, e esta, escreve ela, é uma distinção importante. A escolha da palavra revela a escolha da cabeça. Quem trata a identidade como despesa compra o mais barato que passe. Quem a trata como ativo pergunta antes o que está a construir.
E há o efeito competitivo, que é onde o dinheiro dói mais. Um sinal saído de um modelo pronto, sem sistema por trás, é indistinto por construção: existe igual em dezenas de negócios que compraram o mesmo modelo. O que é igual não tem autoridade, e o que não tem autoridade paga a diferença em ciclos de venda mais longos e em margem cedida para compensar a falta de distinção. É, em parte, o que explica a dispersão de preços que se vê quando se pesquisa quanto custa um logótipo: no fundo da escala compra-se a assinatura de um modelo, no topo compra-se o sistema que a torna defensável. São objetos diferentes com o mesmo nome.
O que a distinção não prova
É preciso dizer onde esta arrumação para, porque é aqui que o nosso setor mais promete de mais. Ter as três camadas certas, o sinal, o sistema e a marca alinhados, não garante vendas. Um sistema coerente decide a perceção com que cada contacto começa, não fecha o negócio por si. O estudo de Henderson e Cote mede reconhecimento e afeto em contexto controlado, não receita: mostra o que um bom desenho tende a produzir na cabeça de quem olha, não prova que encha a caixa. Neumeier e Wheeler são enquadramentos de como pensar a marca, não medem o retorno de a fazer bem.
A distinção também não diz qual a camada que a sua empresa precisa. Uma empresa com um símbolo forte e reconhecido pode precisar apenas de o ordenar num sistema, não de o refazer. Outra, acabada de nascer, precisa das três camadas de raiz. A resposta certa depende do caso, e nenhuma definição de dicionário a dá. E os termos vão continuar a ser trocados no mercado, porque não há árbitro final da língua. O que a NP propõe não é uma nova terminologia, é ser preciso sobre a função, para que a conversa sobre o orçamento não seja uma conversa sobre palavras.
Por isso, primeiro, a pergunta certa
Volte-se ao início. A diferença entre logótipo, logomarca e identidade visual importa, mas não pela razão que costuma trazer as pessoas a procurá-la. Importa porque decide o que se está a comprar: uma assinatura, um sistema, ou a reedificação de uma marca inteira. Comprar a camada errada é o erro caro, e ele começa em não saber qual é o problema.
Na NP, a assinatura é o objeto da criação de logótipos, e o sistema completo, com a paleta, a tipografia, as regras e as aplicações, é o trabalho de branding e identidade visual mais amplo. Qual dos dois a sua empresa precisa não se decide numa tabela de preços; decide-se depois de ouvir o negócio.
O passo seguinte não é escolher entre logótipo e identidade. É uma Escuta Estratégica: uma primeira conversa, sem compromisso, em que ouvimos o que a marca tem de resolver, reconhecimento, coerência ou perceção, e diagnosticamos qual a camada que falta. Escreva-nos por aqui e deixe o Conselho mostrar-lhe o Método.
Fontes
Cada afirmação deste artigo foi verificada na fonte que a publica. Onde a fonte é uma definição de campo e não uma medição, ou onde a leitura corrente exagera o que ela sustenta, dizemo-lo no corpo do texto.
- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbete 'logótipo' (definição corrente, aceção tipográfica e etimologia)
- Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, verbete 'logomarca' (mesma definição, remissão para logótipo)
- Marty Neumeier, The Brand Gap (New Riders / AIGA) (a marca não é o logótipo, é o pressentimento)
- Alina Wheeler, Designing Brand Identity (Wiley) (identidade visual como sistema, branding como processo, identidade como ativo)
- Henderson & Cote (1998), 'Guidelines for Selecting or Modifying Logos', Journal of Marketing 62(2), 14-30
- Aaker (1991), Managing Brand Equity, Free Press (valor de marca como ativos e passivos)
